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Sistemas Regionais de Inovação no Brasil: um projeto de desenvolvimento

 

Por Renato Caporali.

Doutor em Sócio-Economia do Desenvolvimento pela EHESS de Paris, Gerente de Cooperação Internacional da Confederação Nacional da Indústria.

 

 

O vigor, a intensidade e a qualidade das inovações em empresas e instituições são hoje vistos como um dos principais fatores explicativos do incremento de competitividade de uma economia, seja em nível nacional ou regional.  As regiões mais inovadoras sempre figuram com posição de destaque nos rankings de desempenho econômico, o mesmo acontecendo com empresas.  Simultaneamente, cada vez mais as estratégias de desenvolvimento adquirem uma dimensão regional, conduzidas por aquelas regiões que conseguem consolidar seus próprios projetos de busca do desenvolvimento econômico autônomo, fundados na mobilização de seus próprios recursos.

 

Se essas constatações forem verdadeiras – e tudo indica que são, a criação de um ambiente institucional amplo voltado para o suporte à inovação figura, ao lado de outros fatores tais como um ambiente propício a negócios e aos empreendimentos, a boa formação de recursos humanos, como um fator-chave a ser perseguido por países, estados e subregiões econômicas.  Dessa forma, a dificuldade estrutural de empresas de menor porte em internalizarem sistemas de pesquisa, desenvolvimento e inovação deve ser compreendida pela rede de atores institucionais como uma missão à qual elas devem se dedicar a compensar.

 

Durante muito tempo associadas a novos produtos, ou a processos e métodos organizacionais, as inovações vêm sendo hoje também compreendidas como a capacidade de produzir novidades no campo dos modelos de negócios.  Diferentes configurações de negócios empresariais, por vezes mesmo assentadas em produtos iguais ou com pequenas especificidades, representam oportunidades completamente novas para empresas.  Estratégia visando a base da pirâmide social, por exemplo, quase sempre se baseiam em inovações nos modelos de negócios.  Um bom sistema de apoio à inovação tem de ser capaz de apoiar o desenho, buscar soluções e implementar projetos que resultem em todas estas formas de inovação.

 

Dada a incapacidade das empresas em internalizar a competência para conduzir processos em todas estas modalidades, um sistema de inovação se configura como um conjunto de externalidades capazes de prestar serviços às empresas. O essencial de um bom sistema de inovação se alcança quando estes serviços são capazes de trabalhar com qualidade adequada às necessidades do mercado, na tempestividade necessária às agendas e projetos empresariais e com custos adequados aos diversos graus de capitalização das empresas.  Essa tríade de requisitos essenciais para um bom sistema de inovação exige um conhecimento em profundidade da estrutura, grau de desenvolvimento e desafios competitivos das empresas de sua região.  Equipamentos sociais voltados para a pesquisa e difusão tecnológica, as instituições de apoio à inovação passam a ser decisivas para o sucesso do sistema de empresas das regiões.

 

As instituições de suporte ao desenvolvimento empresarial no Brasil tiveram uma evolução histórica muito variada função de origem, missão, formatação institucional ou formação de quadros.  A maioria surge do sistema de universidades públicas, algumas como instituições de Estado nas unidades federativas como centros de pesquisa tecnológica; outras, de instituições privadas de caráter público destinadas à formação profissional, qualidade do trabalho ou fazendo a aproximação entre centros de conhecimento e empresas. Apenas recentemente começaram a surgir os parques tecnológicos.  Embora bastante desigual do ponto de vista regional, essa rede é bastante variada e capacitada, mas ainda carece de integração com os sistemas empresariais nascidos das últimas evoluções da dinâmica econômica, sobretudo as pequenas empresas. 

 

Essa variedade traz elementos de cultura e vocação que são ativos no atendimento à diversidade das necessidades, mas precisam ainda ser levadas a se constituírem como um todo orgânico, superando tendências ao isolamento, à incomunicabilidade e ao autoreferenciamento. As universidades brasileiras, embora tenham boa capacidade de produção científica, direcionam pouco de seus esforços à pesquisa aplicada, tendendo a se concentrar em pesquisa fundamental, geralmente com pequena possibilidade de aplicação empresarial.  Entidades de pesquisas e serviços tecnológicos por vezes têm a agenda focada nas suas próprias especializações, sem fazer com que elas sejam reorientadas permanentemente sobre a partir da evolução real dos sistemas empresariais da região.  Exercícios de prospecção para detectar alteração substancial de cenário estão dando primeiros passos.

 

Praticamente não existem ainda, de forma mais metódica, iniciativas de articulação, atribuindo organizadamente funções e missões, compartilhando informações e métodos, homogeneizando conceitos, compatibilizando estratégias, enfim, estabelecendo parceria que tornem as ações de apoio às inovações um processo organizado, coerente e articulado entre as várias instituições públicas, público-privadas ou privadas. Um programa voltado para o desenvolvimento de Sistemas Regionais de Inovação deve ter por objetivo principal dar maior consistência à relação entre as instituições, clarificando papéis e estimulando complementaridades, transformando-as num verdadeiro “sistema”. 

 

O Programa deverá ter como filosofia orientadora a noção de que o processo de inovação se torna um fundamento da riqueza social e da competitividade de um país ou região na medida da sua apropriação pelas unidades empresariais.  Neste sentido, deve necessariamente ser um projeto com perspectiva teórica e prática claramente dirigida para as demandas do mercado, em que estratégias e métodos das diversas instituições são desenhados a partir das necessidades do ambiente empresarial.

 

Para isso, será cobrado das instituições envolvidas não apenas o compromisso do intercâmbio e abertura às orientações da política de inovação formuladas pelos Governos e sistemas de representação empresarial, bem como de compreenderem a necessidade de compatibilização de suas especializações e competências de forma a tornar investimentos mais eficientes.  Elas deverão examinar suas capacidades de atendimento às empresas no estágio de desenvolvimento em que se encontram, sob critérios de racionalidade empresarial. 

Diante da dimensão das carências na capacidade de atendimento às empresas de médio e pequeno porte, o trabalho tem de evoluir numa filosofia de complementaridade e sinergia. A competição deve se concentrar na qualidade dos serviços, na celeridade do atendimento e na modicidade - melhor talvez dizer pertinência econômica - de preços.  A exploração metódica das possibilidades de financiamento a inovações já existentes deve fazer com que o distanciamento entre a empresa e a política industrial e de inovações se reduza, produzindo um conhecimento mútuo capaz de retroalimentar de informações tornando todo o processo mais consistente.

O Programa Sistemas Regionais de Inovação será implementado em parceria pela Confederação Nacional da Indústria, pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento e com o apoio da Agência de Cooperação Espanhola.  A partir de sucessivos processos de aproximação, até se chegar a uma visão de eficiência de sistema, ele buscará uma clara definição de papéis e sinergias.  O trabalho evoluirá através de análises de benchmarking, com acesso a experiências que configurem práticas de excelência e deverá culminar num amplo programa de capacitação.

 

Para que haja um claro viés de orientação para o mercado, o Programa será coordenado por instituição dirigida por empresários, a Confederação Nacional da Indústria, que detém ampla experiência histórica de articulação entre sistemas de formação e capacitação. Ao mesmo tempo, o envolvimento de instituições públicas é elemento essencial.  A coordenação do Programa terá a prerrogativa de direcioná-lo em busca e a partir de uma visão empresarial focada nas necessidades do mercado.

 

O Programa deverá se consolidar como articulação de parcerias voltadas para uma atuação sinérgica e não competitiva num sistema de caráter coletivo. São estas sinergias que permitem ao sistema de apoio à inovação servir de maneira ampla, equânime e eficiente ao sistema empresarial.   Uma filosofia de cooperação e complementaridades voltadas para o desenvolvimento social e econômico deverá presidir a operação do Programa desde os primeiros passos de sua construção.

 

 

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